terça-feira, 23 de maio de 2006

Linhas, dobras, labirintos


Deleuze e as linhas e as dobras
Repare no mundo das linhas que se cruzam e se tecem. Nós pensamos que as linhas são os componentes básicos das coisas e dos eventos. Assim tudo tem sua geografia, sua cartografia, seu diagrama diz Gilles Deleuze. Interessa as linhas que constituem os fluxos da globalização e da cidade. Eu tendo a pensar das coisas como jogos de linhas a serem desemaranhadas, mas a ser feitas também para cruzar-se. Eu não gosto de pontos. As linhas não são coisas que funcionam entre dois pontos; os pontos estão onde diversas linhas se cruzam. As linhas nunca funcionam uniformemente, e os pontos não são nada, mas inflexão das linhas. Mas geralmente, não são os inícios e as extremidades que contam, mas os intermédios.
Deleuze tem interesse no desdobramento, na abertura, no desvelamento, no labirinto infinito da dobra para dobrar, que produz a topologia do mundo como um do processo que rejeita a ficção dos limites, da fixidez, a permanência, o encaixe, o enclave, o encravamento.
O que é importante é que todas as dobras são igualmente importantes, não há nenhuma hierarquia entre as dobras. Elas não podem ser definidas pelos termos do essencial e o inessential, o necessário e o contingente, ou o estrutural e o ornamental. Cada dobra faz sua parte: cada dobra alarga ' a ' distante. O evento do origami está no desdobrar, apenas como o presente está em envolver: não como o índice, mas como o processo. Bruno Latour, e Michel Serres observam que as dobras ou /o próximo tornado distante/ não formam uma teoria métrica do espaço (e do tempo), que foi rejeitada a favor de uma teoria topológica em que o espaço-tempo é visto dobrado, enrugado e de modo multi-dimensional.

Tradução do texto de C. Blake. Apparatus of Capture: The Use of Deleuzian Thought and Actor Network Theory to Conceptualise Urban Power Relations. In site do GaWC: Globalization and World Cities Study Group and Network. Documento 111

A dobra é o acontecimento
A dobra é o acontecimento, a bifurcação que faz ser. Cada dobra, ação-dobra ou paixão-dobra, é o surgimento de uma singularidade, o começo de um mundo. A proliferação ontológica é irredutível a uma ou outra camada particular dos estratos; igualmente irredutível a qualquer dobra-mestra como aquela do ser e dos entes, da infraestrutura e da superestrutura, do determinante x e do determinado y. O mundo total e intotalizável, o trans-mundo cosmopolita, diferenciado, diferenciante e múltiplo é, ao contrário, infinitamente redobrado, ele fervilha de singularidades nas singularidades, de dobras nas dobras. As oposições binárias maciças ou molares como a alma e o corpo, o sujeito e o objeto, o indivíduo e a sociedade, a natureza e a cultura, o homem e a técnica, o inerte e o vivo, o sagrado e o profano, e até a oposição de que partimos entre transcendental e empírico, todas essas divisões são maneiras de dobrar, resultam de dobras-acontecimentos singulares do mesmo “plano de consistência” (Deleuze e Guattari, Mil Platôs n. 4/5). “Isso” poderia ter se dobrado de outra maneira. E como a dobra emerge num infinitamente diversificado, mas único, sempre se pode remontar ao acontecimento da dobra, seguir seu movimento e sua curvatura, desenhar seu drapê, passar continuamente de um lado para o outro.
Texto de Pierre Levy. Plissê fractal ou como as máquinas de Guattari podem nos ajudar a pensar o transcendental hoje.

A dobra e o labirinto de Leibniz
Deleuze serviu-se da metáfora do labirinto para explicar o conceito de espaço em Leibniz, em seu livro A Dobra. Diz Deleuze, “Leibniz explica em um texto extraordinário: um corpo flexível ou elástico ainda tem partes coerentes que formam uma dobra, de modo que não se separam em partes de partes, mas sim se dividem até o infinito em dobras cada vez menores, que conservam sempre uma coesão. Assim, o labirinto do contínuo não é uma linha que dissociaria em pontos independentes, como a areia fluida em grãos, mas sim é como um tecido ou uma folha de papel que se divide em dobras até o infinito ou se decompõe em movimentos curvos, cada um dos quais está determinado pelo entorno consistente ou conspirante. Sempre existe uma dobra na dobra, como também uma caverna na caverna. A unidade da matéria, o menor elemento do labirinto é a dobra, não o ponto, que nunca é uma parte, e sim uma simples extremidade da linha”. O espaço leibniziano é constituído como um labirinto com um número infinito de dobras, algo similar à cidade composta de quadras, casas, quartos, móveis, dobras dentro de dobras, dobras que conformam espaços, como um origami, a arte da dobradura do papel.
Texto de Fernando Fuão. O sentido do espaço. Em que sentido, em que sentido? – arquitexto 50 in site do Vitruvius

2 comentários:

Robson Leite de Albuquerque disse...

Esse seu blog vicia. Sereia sibernética subversiva que aponta os navegantes rumo ao farol. Este é seu canto. Beijos meus.

Anônimo disse...

Se vc quiser ver mais veja www,fernandofuao.arq.br